Eu não sei ao certo quando foi, mas eu abri os meus olhos um dia e nada mais estava igual. Tudo que eu havia criado para mim havia de...

Acho que cresci...



Eu não sei ao certo quando foi, mas eu abri os meus olhos um dia e nada mais estava igual. Tudo que eu havia criado para mim havia desaparecido em um estalar de dedos, e eu nem sequer tive tempo de me despedir, ou de perceber o quanto eu era feliz sem nem saber.

Meu reino inteiro havia sumido. Os castelos, as princesas, o meu vestido de glitter e minha coroa de flores feita pelos gnomos mágicos. A floresta encantada também.


Até o tesouro, que eu havia conquistado quando corri pelo quintal e atravessei o arco-íris não estava mais embaixo da minha cama, trancafiado à sete chaves. 

Minha roupa de batalha, minha espada prateada e minha varinha, tudo havia ido embora. Eu não podia mais salvar a cidade como super-heroína, derrotar os vilões da minha história com os meus poderes mágicos e nem visitar o país das maravilhas. 
Me sentei no lago e a sereia não veio conversar. Nem as nuvens tomaram formas de dragões ou de cachorrinhos engraçados. Nada mais parecia tão legal, tão divertido ou tão único.
Com o tempo, parei de desenhar a menina com o balão de coração que flutuava no papel A4 e tomava vida. Parei de virar presidente do meu prédio, cantora profissional do meu chuveiro e atriz dos teatros da minha sala.

Eu achei que havia crescido.

Quando tudo começou a parecer normal, eu notei que havia perdido a graça do negócio inteiro. As responsabilidades da escola, as argumentações com os meus pais, que não pareciam mais nem rei nem rainha. Quando me apaixonei por um cara normal e ele não veio num cavalo branco e nem me deu o beijo do amor verdadeiro. Quando a floresta virou só uma floresta e o mundo pareceu enorme e eu pequena demais.

Mas não foi naquele dia que eu cresci, não mesmo. Eu chorei muito com a cara enfiada no travesseiro depois daquilo, corri muito atrás dos pedaços do meu coração quebrado nas voltas das festas, ainda achava que um raio era o fim do mundo. Ou pelo menos, do meu mundo.


Mas não era, nunca foi. Eu descobri que a faculdade não é nada do que parece nos filmes de hollywood (é até melhor) e que escolher uma profissão pro resto da sua vida é uma responsabilidade e tanto (mas escolhi). Descobri que eu posso continuar sendo o que eu quiser e quando eu quiser. Que o coração quebrado sempre pode ser restaurado mesmo sem a ajuda dos gnomos mágicos curandeiros. Que minhas amigas não são princesas, mas são tão reais e leais quanto. Que meus pais não são invencíveis, mas fazem de tudo para ser.


E que bem, a vida pode até perder um pouco da diversão quando você cresce, mas que ainda existem muitas coisas que eu posso descobrir ao longo do meu caminho. E que não é porque eu não tenho mais quatro anos, que não posso criar tudo o que eu bem entender.


Foi só quando percebi que abri os olhos e acenei para o guerreiro de armadura prateada, me arrumei e fui viver a minha vida, que eu notei que crescer é saber deixar a criança viva dentro de você.

Acho que cresci. 


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